A Rede Livre e o desafio do desenvolvimento tecnológico colaborativo

Dentro das diversas frentes que compõem os trabalhos realizados pelo Laboratório de Cultura Digital, está o desenvolvimento de tecnologias digitais e livres. Estas tecnologias estão agregadas na Rede Livre, uma plataforma WordPress personalizada que possibilita a criação de sites e portais para Pontos de Cultura, eventos, festivais, agentes culturais, entre outros. São disponibilizadas ferramentas para aperfeiçoar o processo de comunicação das organizações, como instrumentos para gerenciamento de contatos e envio de e-mails e SMS, além de mecanismos de democracia digital, mobilização online, mapas culturais e doações financeiras. De modo geral, pode-se dizer que a Rede Livre apresenta um conjunto de soluções web para os desafios diários enfrentados pelas organizações culturais e sociais. 

Para tanto, parte-se do princípio de que, embora a tecnologia esteja amparada pelo suporte eletrônico, as trocas realizadas por meio dela são substancialmente humanas. O processo de desenvolvimento e o trabalho da equipe só têm sentido se a tecnologia vier a cumprir sua função social. O Coordenador de Cultura Digital do Lab, João Paulo Mehl, ressalta que a concepção de softwares livres não deve ser tarefa exclusiva dos especialistas, programadores e webdesigners, mas também de outros atores da sociedade. “Queremos envolver os quilombos, grupos de teatro, os povos indígenas. Queremos que todos dêem a sua contribuição enquanto usuários ou desenvolvedores, mostrando o que cada organização precisa”, diz.

Histórico

Em 2005, ano de inauguração da Ação Cultura Digital dentro do Ministério da Cultura (Minc), a maior parte dos Pontos de Cultura não tinha acesso a recursos digitais básicos. Os programas de “inclusão digital” em sua maioria ainda eram voltados para a formação em ferramentas básicas, como softwares de escritório e coisas do gênero. Nessa época não tão distante, a internet era muito menos multimídia e o acesso era mais restrito.

Leo Germani, hoje no Hacklab e na época no Minc, conta que um dos desafios da gestão foi encarar os Pontos de Cultura como produtores de conteúdo multimídia. Desafio porque a primeira barreira a ser superada era a tecnológica. Para isso, foram distribuídos aos Pontos “kits multimídia” com monitores, câmeras de vídeo e fotográficas,  mesa de som, equipamento completo com tudo rodando em software livre. Foram organizados os Encontros de Conhecimentos Livres para familiarizar os agentes culturais envolvidos com essas tecnologias. Os encontros também tinham a finalidade de abordar as questões não-técnicas da cultura digital, como o compartilhamento, a produção colaborativa e a articulação em rede.

“De lá pra cá muita coisa mudou e as demandas também mudaram. Muito mais Pontos tem acesso a internet e já estão alfabetizados no mundo digital. Os equipamentos para produção multimídia baratearam ainda mais, principalmente a partir dos dispositivos móveis”, aponta Leo. No entanto, essas transformações não conseguiram sanar algumas demandas já existentes em 2005.

Uma delas é o fomento ao desenvolvimento de softwares livres. Apesar de o Minc ter apoiado e divulgado o uso de software livre para a produção multimídia no Brasil, é necessário apoio financeiro para o desenvolvimento, caso contrário as demandas não são atendidas e a recorrência a softwares piratas cresce. Outro ponto sensível é o desenvolvimento de alternativas às plataformas proprietárias de difusão cultural, como o YouTube. Os Pontos são produtores de conteúdo livre, mas não têm um canal de difusão autônomo e livre para publicar. 

Para Germani, a Rede Livre aparece com o intuito de solucionar esses problemas, pois “fomenta uma rede de desenvolvedores e disponibiliza serviços para que os Pontos possam ter sua presença online de maneira mais autônoma”. João Paulo Mehl reforça essa perspectiva ao explicar que as ferramentas e a plataforma foram construídas depois de anos de acompanhamento das demandas de uma rede de pessoas que trabalham com o desenvolvimento de tecnologias para o setor cultural. “Essa rede de desenvolvedores apontava uma gama de soluções necessárias muito parecidas”, afirma. 

Atender à demanda dos grupos sociais de modo simples e acessível é outro aspecto central. Para Jacson Passold, Sys Admin do Lab, a preocupação com a acessibildade às ferramentas é um ponto crucial nesse processo de desenvolvimento. “Escolhemos o WordPress porque é uma das plataformas mais simples e conhecidas. Quem não conhece, consegue se familiarizar com ela por meio de pesquisas simples”, aponta.

Autonomia para as organizações

Um dos princípios do Lab é o empoderamento das organizações em todo o processo de desenvolvimento de tecnologias, da especificação ao código pronto. Uirá Porã, articulador do Gabinete Digital do Rio Grande do Sul, aponta que “empoderar organizações para o uso e o desenvolvimento de tecnologias é um desafio permanente”. 

Nesse sentido, o Lab tem realizado os Ciclos de Cultura Digital, que seguem conceitos dos Encontros de Conhecimentos Livres e têm por objetivo apresentar as tecnologias e empoderar as organizações para usá-las e também desenvolvê-las. Outra realização do Lab são as “Residências de Cultura Digital”, ocasiões em que os Pontos e organizações culturais são convidados a permanecer um tempo maior junto à equipe do Lab para que se apropriem das tecnologias desenvolvidas e desenvolvam seus projetos de maneira assistida. 

Desenvolvimento colaborativo em rede

 

Software livre de código aberto e equipe

A Rede Livre e suas tecnologias foram elaboradas em software livre e com código aberto. O objetivo é que todos que queiram ver seu funcionamento e participar de seu desenvolvimento possam ter acesso ao código. “O conhecimento não deve ser bloqueado. Queremos que as pessoas tenham acesso a essa informação. Em um código aberto as pessoas podem ver que não há nada ilícito”, afirma Jacson. Para ele, o código aberto é o futuro da computação, pois proporciona um ganho de qualidade e de capacidade na geração do software. “No software aberto as pessoas podem ajudar, contribuir, opinar”.

O grupo de desenvolvedores é integrado por designers, programadores e administradores de sistema. O trabalho é conjunto e preza pela criação de ferramentas que facilitem o trabalho de Pontos de Cultura, agentes culturais e movimentos sociais. “Quanto mais fácil e mais intuitiva a tecnologia for, mais chance você tem dela ser utilizada”, afirma Jacson. 

Essa interação entre usuário e ferramenta também é alimentada por Eduardo Zulian, responsável pela finalização do desenvolvimento. “Fico encarregado de tornar a plataforma funcional ao administrador do site. Acaba sendo também um trabalho de trocar experiências com quem está utilizando a Rede Livre”, aponta.

GitHub

Para desenvolver a Rede Livre foi escolhido o GitHub, um repositório de códigos. É uma ferramenta global que permite a contribuição entre diversos desenvolvedores para a geração e construção colaborativa de um novo código. A plataforma funciona através do versionamento dos códigos, mantendo as versões anteriores às mudanças feitas pelos programadores, deixando essas mudanças documentadas em linhas de tempo, comentários e arquivos. Assim, evitam-se perdas e a comunicação entre os diversos colaboradores torna-se mais simples.

O GitHub opera também dentro da lógica do software livre. O que é produzido na plataforma está disponível para acesso, leitura e checagem. As mudanças, no entanto, só podem ser feitas por quem está autenticado como um dos desenvolvedores. A plataforma ainda permite acesso a uma linha do tempo de todo o desenvolvimento do código, ferramentas úteis para os envolvidos e até uma enciclopédia sobre o código, explicando do que se trata e todo o projeto que está sendo desenvolvido.

Segundo Jacson, um ponto positivo é que há controle e facilidade de apreensão do modo de desenvolvimento. Para tanto, um grupo fica responsável por organizar o processo: aprovar envios e mudanças de código, gerenciar o uso das diversas ferramentas disponíveis e gerir grupos de desenvolvimento e colaboração, tudo através de um processo transparente e aberto. “Ferramentas de uso popular, de governos, voltadas à população em geral, deveriam ser feitas na lógica do software livre, pois não haveria donos para esse conhecimento, ele seria de todos”, ressalta Jacson.

Desenvolvimento colaborativo

A Rede Livre conta também com um blogue, por meio do qual é possível acompanhar o processo. Qualquer pessoa pode se cadastrar e enviar e receber comentários, postar novas idéias e ajudar na construção da Rede Livre. O propósito é tornar esse processo o mais horizontal e participativo possível, sendo aberto a sugestões de todos os envolvidos, desde programadores até os usuários finais das plataformas.

Redes Federadas 

Além do desenvolvimento, o Lab tem como princípio trabalhar com soluções tecnológicas para integração dessas diferentes tecnologias e plataformas. Uma maneira de fazer isso é por meio de Redes Federadas. 

Apesar da internet ter como característica principal a descentralização, só é possível trocar informações por meio de uma base material (infraestrutura de cabos e conexões), que está, hoje, sob o controle de empresas de telecomunicação. Os dados que trafegam por essa infraestrura também não estão imunes de serem centralizados por corporações de software, como Google ou Facebook. 

Nesse cenário, fica clara a falta de soberania na rede. “As Redes Federadas têm uma importância estratégica em relação à soberania computacional para os movimentos sociais. Para que ela seja conquistada, é importante muito investimento na apropriação de tecnologias por parte desses movimentos”, afirma Tiago Skarnio, do Pontão de Cultura Ganesha/SC. 

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